domingo, 12 julho , 2026

Depois de 203 tumores e AVC, Verônica Hipólito disputa mais um Parapan

A vida de atleta geralmente não é fácil, exige uma rotina puxada de treinos e muita dedicação. Com os paratletas, as barreiras são ainda maiores, já que eles precisam superar as mais diversas dificuldades físicas. Mas existem pessoas que enfrentam problemas ainda mais complexos, como os da velocista Verônica Hipólito. Só que nem mesmo uma série de complicações de saúde extremamente delicados impediu a jovem de literalmente correr em busca dos seus sonhos.

Em 2009, quando Verônica tinha 12 anos, os médicos descobriram um tumor na hipófise e tiveram que operar para retirá-lo. Dois anos depois, já aos 14 anos de idade, ela teve um Acidente Vascular Cerebral Isquêmico do lado direito do corpo. Mesmo com todos esses problemas, a velocista não desistiu do sonho com o esporte. Dois anos mais tarde, já em 2013, ela se sagrou campeã mundial nos 200m rasos e vice-campeã mundial nos 100m no Mundial de Atletismo Paralímpico de Lyon, em 2013.

Os resultados lhe colocaram como uma das maiores atletas do mundo na modalidade. Os treinamentos se intensificaram visando ao Mundial de 2015 e aos Jogos Parapan-Americanos do mesmo ano. Mas novamente o destino iria lhe impor mais uma barreira nessa da vida. Às vésperas das competições, Verônica descobriu que tinha 200 lesões no intestino grosso.

Mas Verônica Hipólito tinha fome de títulos, se recuperou e seguiu com a preparação. O resultado é que ela foi a competidora mais premiada da edição dos jogos Parapan-Americanos de 2015, em Toronto. Voltou para o Brasil com três ouros e duas pratas, além de ser a atleta mais jovem do torneio. “Eu fico muito feliz porque eu era super nova, a mais nova de todos os tempos e também por ter sido uma mulher, porque eu acredito que eu consegui empoderar muitas atletas a continuarem treinando e buscarem aquilo em que elas acreditam. Dois dias depois de chegar ao Brasil, eu me operei”, relatou Verônica. Ela foi operada e perdeu 90% do órgão para evitar a chance de desenvolvimento de câncer. O intestino grosso ficou com apenas 10 centímetros.

No mesmo ano ela ainda foi campeã sul-americana nos 100m, 200m e salto em distância. E em 2016, ganhou uma prata e um bronze na Paralímpiada do Rio. Só que mais um capítulo cíclico seria escrito na história de Verônica. Assim como ocorreu anteriormente, o intervalo de dois anos viria marcar novamente a história da jovem. Em 2017, ela recebeu a notícia da volta do tumor na hipófise.

A cirurgia dessa vez foi realizada com outro médico, e a recuperação foi bastante difícil. No ano passado, o destinou mais uma vez passou a perna na atleta, o tumor estava maior ainda. Foi aí que o primeiro neurocirurgião de Hipólito descobriu que na cirurgia de 2017 tinham retirado parte da hipófise e deixado parte do tumor. Em 2018 ela foi novamente operada, teve inúmeras complicações, broncopneumonia, trombofilia, desenvolveu problemas com relação à produção de hormônios e ganhou 20kg.

Ela passou três meses de cama, sem forças nem para se alimentar, sendo assistida pelos pais. Somente há três semanas foi que ela chegou para se integrar à equipe brasileira para o Parapan de Lima, 2019. E nem tudo isso foi capaz de provocar revolta em Verônica. A humildade está até na hora de dividir a justificativa da sua resiliência com outras pessoas. “Não é só minha força, é a nossa força, a nossa velocidade, a nossa medalha, o nosso sonho. Eu nunca vou estar sozinha, tem muita gente comigo, como minha família, meus amigos de treino, de faculdade, os treinadores, os patrocinadores, o Comitê Paralímpico Brasileiro, como também as pessoas das redes sociais. Eu acredito muito em energia positiva, quanto mais positividade melhor, pra gente conquistar o que todos nós queremos e inspirar todo esse Brasil. Não significa que foi fácil. Várias vezes eu chorei, várias vezes eu achei que não ia dar. O importante é que eu estou aqui, o importante é que a gente está aqui e agora a gente vai atrás do nosso sonho”, declara.

E quem duvida que essa lutadora, no jogo e na vida, vai ultrapassar os limites das dificuldades na pista? “Eu continuo acreditando pelos mesmos motivos que acreditei todas as outras vezes. Todo mundo tem problemas, e não importa se um problema é um tumor, um câncer ou um problema de família. Cada um sabe sua dor e tudo tem uma solução. Minha solução foram as cirurgias, e por mais que tenham sido dolorosas, eu estou aqui de volta e vou dar o meu melhor e espero dar muito orgulho e muita inspiração pra muita gente”, finalizou Verônica Hipólito.

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